Docente universitário descreve o contributo da Universidade no processo de pacificação em Angola

O docente universitário, Tuca Manuel, afirmou que a Universidade em Angola jogou um papel imprescindível no alcance da Paz efectiva em 2002 e assinala os ganhos obtidos nos últimos 15 anos desde assinatura do Memorandum de Entendimento. O académico fala dos desafios da UKB para os próximos tempos.
No seu entender, as investigações para pacificar Angola, apesar de não terem sido tornadas públicas, foram objecto de discussão por vários núcleos da intelectualidade, a julgar pelo facto de as pessoas envolvidas no processo de negociação da Paz terem sido forjadas pelas universidades, facto, entretanto, que contribuiu grandemente para Angola alcançar a Paz efectiva.
Em entrevista para a página web da UKB www.ukb.ed.ao, a propósito dos 15 anos de Paz assinalados a 4 de Abril, o académico descreveu o contributo da universidade ao processo de pacificação em Angola.
DADOS PESSOAIS
Nome: Tuca Manuel
Profissão: Docente universitário
Formação:
• Licenciatura em Ensino da História, pelo Instituto Superior de Ciências da Educação de Benguela da Universidade Agostinho Neto.
• Especialista em Organizações Educativas pela Universidade do Minho.
• Doutorado em Organização e Administração Escolar, pela Universidade do Minho.
Filiação científica:
• Membro do Fórum Internacional de Política e Administração da Educação (INTEREDUC).
• Membro Fundador da Associação Internacional de Ciências Sociais e Humanas em Língua Portuguesa.
• Vice-Presidente do Conselho Fiscal da Associação Internacional de Sociais e Humanas em Língua Portuguesa.
• Membro do Fórum da Gestão do Ensino Superior nos Países e Regiões de Língua Portuguesa.
• Membro do Fórum Português de Administração Educacional (FAPAE). • Investigador-Colaborador do CIED (Centro de Investigação em Educação) – Universidade do Minho – Braga – Portugal.
• Membro do Fórum Ibero-americano de Administração Educacional.
ukb.ed.ao:Professor Tuca Manuel, obrigado por ter acedido ao nosso convite. Que apreciação faz do alcance da Paz em Angola, em particular para a Universidade Katyavala Bwila inserida na Região Académica II?
TM: Enquanto a universidade esteve confinada nas grandes cidades, como é o caso de Luanda, Benguela e Lubango, não contribuiu muito para o alcance da Paz, porque, nalguns casos, despovoava uma parte do território nacional, que significa criar motivos e argumentos para que as assimetrias – cada vez mais aceleradas – aumentassem à procura do ensino superior.
Para a universidade participar de forma efectiva no processo de pacificação, deve ser democratizada. Ou seja, a partir da altura em que se torna extensiva em quase todo território nacional, evitamos as assimetrias e então criamos um quadro de aceitação e credibilidade do próprio Estado.
ukb.ed.ao: Qual é o papel da UKB no processo de reconciliação nacional?
TM: A universidade contribuiu de forma directa - através de debates sobre aferições à situação real do País - e indirecta - com reflexões bastante acesas sobre o problema do país no concerto das nações - permitindo que o país, em 2002, pudesse alcançar a Paz efectiva.
ukb.ed.ao: O que considera ser os ganhos mais visíveis para UKB com a conquista da Paz em Angola?
TM: Um dos ganhos mais assinaláveis para universidade em Angola, no geral, e para UKB, em particular, tem que ver com extensão do ensino universitário em todo território nacional, permitindo acessibilidade deste bem social a toda gente com a criação de infra-estruturas. Entretanto, contrariamente ao período anterior, hoje em cada província há, pelo menos, uma universidade comprometida com a formação de quadros.
ukb.ed.ao:Que desafios se avizinham para a Universidade nos próximos tempos face às exigências sociais? Que propostas avança a fim de que se consolide um Sistema de Educação Nacional de qualidade?
TM: A universidade em geral, e UKB, em particular, tem enormes desafios pela frente, um dos quais virado fundamentalmente à formação de quadros competentes para fazer face às exigências do mercado. Pois, no âmbito da massificação do ensino superior, se terá, eventualmente, perdidas valências, tendo o rigor baixado significativamente. Tal facto originou imprecisões nas grelhas curriculares, causando hiatos entre aquilo que é o ensino superior efectivamente expectável pelos angolanos e o que se tem conseguido dar.
Acredito que com práticas e estratégias de gestão configuráveis a esse nível (nas grelhas curriculares), é possível ultrapassar tais desafios, porque os estudantes vêm com muitas debilidades dos níveis anteriores. É necessário que não se confunda a mercantilização do conhecimento universitário com a extensão universitária, sob pena de se induzir a população em erro porque, nalguns casos, fizemos cursos e dizemos que são cursos de extensão. Porque é que são de extensão? Dizem “porque tem retorno financeiro”. Não, o curso não tem que ter necessariamente retorno financeiro. O curso de extensão significa diálogo entre a universidade e as instituições e a sociedade. O desafio é buscar a unidade do sistema nacional de ensino, porque o ensino superior é um subsistema que coabita com os outros.
ukb.ed.ao: Que avaliação faz da cultura organizacional da UKB?
TM: Enquanto houver uma administração do ensino superior configurada em papéis, não se vai contextualizar os planos devido ao igualitarismo e a universalidade. Os estudantes, quer os graduados quer os que se encontram no sistema, vêm os professores em dimensões distintas e a pensar que os professores querem impedir a graduação deles. Tem que haver complementaridade nas grelhas curriculares.
Há necessidade de as grelhas curriculares serem complementares, de modo que não haja distanciamento entre o conhecimento adquirido pelo aluno nos sistemas precedentes com aquele que lhe é expectável no ensino superior. Nos exames de admissão, vemos de facto alunos a escreverem coisas desconcertadas que a gente fica assim: como é que ele aprendeu isso e onde é que isso lhe foi dado. Os estudantes, muitas vezes, absorvem uma dimensão caquéctica que nada tenha que ver com a científica.
Por outro lado, outro maior problema por que se debate o ensino superior no país é a selecção de professores. Reconheço que ainda não se tem os melhores professores para esse nível de ensino, por isso é preciso requalificar a carreira docente porque muito boa gente é aplicada, mas mal considerada. E há muita gente, tendencialmente, bem considerada e mal aplicada. Isso merece uma resposta pragmática.
ukb.ed.ao: Qual é o quadro que se lhe permite descrever sobre a Universidade ontem e hoje?
TM: A UKB, inserida na Região Académica II, tem que zelar pela convergência do discurso e a prática, por a gestão do ensino superior responder, fundamentalmente, a 3 funções, nomeadamente a de ensino, investigação e extensão. Ou seja, eu só vou ensinar aquilo que investiguei e dos diagnósticos que eu faço no terreno. Isto é que devia ser o conceito de professor no ensino superior realça.
Se não se olhar seriamente para essas questões com o rigor que se impõe, a universidade terá dificuldades em contribuir para estabilidade e desenvolvimento nacional. A UKB não deve formar exclusivamente futuros funcionários da Administração Pública, mas infundir nos estudantes a criatividade, a fim de que eles próprios se preparem para auto-empregabilidade à semelhança do que acontece noutros países, daí que temos de ter uma administração do ensino superior configurada com as suas 3 funções e um corpo docente configuráveis igualmente com as 3 funções, ensinando aquilo que investiga.
Não se pôde admitir que encontremos colegas a ensinarem a partir do seu apontamentodo tempo que andou em formação. Se assim for, por favor, vamos concentrar a aula no aluno e não em nós.
ukb.ed.ao: Agradecemos a disponibilidade, Professor Tuca.
TM: Eu é que agradeço. Obrigado.